E-Research (Electronic Research),
alternativamente grafado eresearch, e-research e ainda e-Research, é um termo abrangente que abarca tanto a pesquisa fora
do âmbito científico como a colaboração em larga escala, nacional ou global, na
investigação. Tipicamente, recorre às tecnologias de informação e comunicação,
em particular quando associada à computação distribuída de elevado desempenho e
à imensa capacidade de armazenamento, aspetos que contribuem para a diminuição
de custos e permitem estudar problemas complexos.
O termo
corresponde, assim, a um processo sistemático de pesquisa, que decorre em
contexto online, ou seja, na e com a Internet, tendo como desígnio criar
condições favoráveis à pesquisa, construção e/ou consolidação de conhecimento.
E-Research e investigação tradicional
De acordo com
Andersen e Kanuka (2003), a e-Research
terá muitos pontos comuns com a investigação tradicional, pelo que replicará
quase sempre o respetivo processo de conceção e as diferentes etapas
metodológicas, nomeadamente no que concerne à opção por um paradigma
metodológico de investigação, ao recurso à literatura existente sobre a
temática de investigação, ao(s) objetivo(s) da mesma, à formulação do problema,
das questões e hipóteses a investigar, ao reconhecimento da importância e das
limitações da investigação e ainda ao planeamento dos procedimentos de recolha
e análise de dados.
Quivy e Campenhoudt
(1998) afirmam, também eles, que o processo metodológico decorre obedecendo aos
mesmos pressupostos de outras metodologias para as ciências sociais, que ocorre
em três fases: rutura, construção e verificação, segundo etapas bem definidas,
pergunta de partida, exploração, problemática, construção do modelo de análise,
observação, análise de informações e conclusões.
E-Research: Desafios, Potencialidades e Precauções
Andersen e Kanuka
(2003) reforçam que a e-Research
pressupõe, da parte do investigador, uma atitude curiosa e crítica de aceitação
das ferramentas tecnológicas, bem como de disponibilidade para olhar o mundo
com recurso às novas tecnologias de comunicação. Para além disso, apresenta-se
como um desafio às competências técnicas do investigador, na medida em que é
fundamental conhecer as características operacionais básicas da Internet. Em
todo o caso, a e-Research capta algum
do entusiasmo, abrangência e diversidade oferecidos por um conjunto cada vez
maior de ferramentas e técnicas nela baseadas.
Importa ter em
atenção que a utilização da Internet em contextos investigativos é,
simultaneamente, uma ferramenta poderosa, que dá acesso a uma imensidão de
dados, e um desafio, como referem, por exemplo, Pereira et al. (2021), que
deriva da mediação tecnológica e dos problemas que esta acarreta, em particular
quanto à identidade dos participantes ou em relação ao controlo do ambiente em
que decorre o acesso às ferramentas por parte dos inquiridos.
De facto, a
investigação online (e-Research) vem acrescentar outros meios
aos métodos e técnicas de investigação tradicionais, não só pela vasta
informação de texto e multimédia que pode ser pesquisada na Internet, como
pelas ferramentas hoje disponíveis, que permitem tratar um grande volume de
dados e produzir nova informação de forma criativa. O volume de dados
disponível é avassalador e o critério de qualidade deve ser acautelado, pelo
que a pesquisa de fontes deve ser criteriosa e fidedigna.
Um dos aspetos
fulcrais relaciona-se com a necessidade de garantir a fiabilidade e a
credibilidade da informação recolhida online. Segundo Anderson e Kanuka (2003,
39), esta “fornece novas ferramentas e técnicas para aumentar tanto a
eficiência como a eficácia do investigador”. Os autores elencam os cinco
elementos essenciais para identificar a literatura relevante e de qualidade, a
saber:
- a acessibilidade,
já que na Internet há um crescimento exponencial da literatura disponível, sem
que isto implique um aumento dos custos ou de tempo e esforços por parte dos
investigadores;
- a
legibilidade, já que os materiais disponíveis online podem ter vários formatos,
inclusive multimédia;
- a
relevância, visto que, graças à eficácia dos motores de pesquisa, se torna mais
fácil aceder a diferentes textos, mas, simultaneamente, pode ser mais difícil
verificar essa relevância e a veracidade da informação veiculada;
- a
autoridade, que exige que os investigadores tenham uma maior diversidade de
competências de avaliação crítica, visto que nem sempre a revisão por pares ou
institucional está garantida;
- a
atualidade, que, mais uma vez, como nos casos anteriores, pode ser um problema,
porque muitas vezes essa atualidade não é real, mas apenas aparente, visto que
a informação não é sistematicamente atualizada.
Os mesmos autores,
tal como também o fazem Tuckman (2000) e a Carta Ética (2014), referem a
importância das questões éticas em todo o tipo de investigação e reforçam que
na e-Research estas questões adquirem
maior relevância e complexidade, tendo em conta os aspetos supracitados,
nomeadamente em relação à proteção de dados, ao consentimento informado, à obtenção
de uma amostra imparcial, à verificação da identidade dos participantes, entre
outros.
Há, no entanto,
algum consenso entre os diferentes autores quanto às formas que a investigação online assume e que podem ser: o design-based research[1],
os inquéritos, as entrevistas, os grupos de especialistas, a análise de dados,
a análise de comportamentos em ambientes virtuais, entre outros. Com efeito, a Web oferece um conjunto vasto de
ferramentas de comunicação que podem facilitar técnicas de entrevista ou discussão
de grupo com participantes a distância, o que deve ser tido em conta.
Esta metodologia
permite que investigadores realizem estudos que seriam praticamente impossíveis
de realizar através dos métodos tradicionais, nomeadamente os que envolvem
populações dispersas, aqueles que se estendem por longos períodos de tempo e
estudos em que exigem um vasto número de participantes. Este tipo de
investigações é exequível graças às seguintes possibilidades potenciadas pelos
meios digitais:
● distribuição e recolha de
inquéritos;
● entrevistas abertas ou
estruturadas baseadas e conduzidas via correio eletrónico ou em conferências
mediadas por computador;
● grupos focais com recurso a
conferências vídeo ou áudio síncronas;
● análise
de registos e outros meios equivalentes para medir e sintetizar atividades na
rede;
● entrevistas realizadas com
chamadas telefónicas via Internet;
● análise de transcrições de texto
decorrentes de atividades sociais ou de aprendizagem;
● análise do comportamento social
em ambientes de realidade virtual;
●
avaliação online do desempenho ou do conhecimento.
Não obstante a
possibilidade de existirem alguns constrangimentos em relação ao
(des)conhecimento dos participantes numa investigação assente na e-Research, é de salientar que, desta
forma, os investigadores conseguem recolher uma vasta quantidade de dados, de
forma mais rápida e sem custos, trabalhar com amostras maiores e mais
diversificadas, o que contribui para a qualidade dos estudos. Estes aspetos vão
ao encontro do que afirmam Andersen e Kanuka (2003), isto é, que a e-Research permite a colaboração entre
investigadores e a realização de estudos conjuntos.
Para Coutinho
(2012), ao investigar os processos de ensino e aprendizagem, a Internet oferece
possibilidades a dois níveis: por um lado, constitui uma espécie de lente,
através da qual se observam as pessoas quando interagem online, construindo, assim, as suas identidades e organizando-se em
comunidades, e, por outro, é, per si,
uma ferramenta poderosa para recolher e analisar dados na pesquisa social. O
investigador, que observa, recolhe e analisa dados em ambientes mediados pela
Internet, depara-se com várias oportunidades e, também, com vários desafios.
Assim, a fluidez e
a comodidade de acesso constituem algumas das vantagens, potenciadas pela web
neste tipo de pesquisa. Vaz et al. (2009)
enfatizam, como aspetos positivos na investigação em ambientes digitais, a
rapidez do acesso aos dados e a melhoria de qualidade da própria investigação,
que advém, por exemplo, da facilidade de comunicação entre investigadores.
Estes autores, referindo-se à pesquisa qualitativa online, destacam, também,
como vantagens a possibilidade de chegar a vários públicos (que podem
permanecer nos seus meios), a redução de custos e a diminuição da probabilidade
de erro, a que acresce, também, a facilidade do tratamento de dados com recurso
a ferramentas próprias.
Relativamente às
possibilidades da e-Research,
Petersen e Farrell (2016) consideram que as vantagens desta forma de
investigação são significativas e trazem benefícios para a qualidade dos
estudos, sem deixar de alertar para o facto de haver aspetos que exigem a
reflexão e o debate da comunidade científica no sentido da definição de regras
e procedimentos a instituir:
“Despite some real limitations posed
by Internet data, the rapid spread of Internet access and participation, the
increasing richness of the online environment, and the ability of researchers
to conveniently collect large amounts of data at low cost are so attractive
that online research will become increasingly common. This will require the
continued refinement of online research methods, the development of appropriate
research ethics standards, and the acquisition of more sophisticated computer
data analysis skills.”
Petersen e Farrell (2016, n.p.)
Importa referir
que, se, por um lado, o recurso à Internet para a realização de investigação
permite uma colaboração em grande escala, por vezes, esta levanta problemas
quanto à validação dos dados recolhidos. Quivy e Campenhoud (1998) também
alertam para o perigo de não se prever inicialmente uma delimitação
bibliográfica para análise de conteúdo, levando à “gula de livros” (Idem),
sendo este perigo de dispersão muito maior em contextos de investigação online
(E-Research).
Conclusão
Para Pereira et al.
(2021), a utilização de contextos online
acarreta outros desafios. Estes autores consideram que este contexto, apelidado
de virtual, é na verdade real e mediado tecnologicamente, com todos os desafios
que isso implica. Assim, a e-Research concilia dois mundos vastos:
a Internet e a investigação, com todos os aspetos e especificidades que
decorrem das suas múltiplas dimensões e naturezas complexas.
Outro aspeto
relevante prende-se com o cumprimento das prescrições metodológicas (as suas
etapas e as suas dimensões) e éticas inerentes a qualquer investigação. Ou
seja, implica, tal como referem Andersen e Kanuka (2003), que haja uma
interseção entre as competências que são necessárias para proceder a uma
investigação (research skills) e as
que são necessárias para utilizar corretamente a Internet, nomeadamente a
identificação de problemas, recolha, tratamento e análise de dados e
disseminação do conhecimento (Internet
skills).
Em suma, este é um
processo exigente e desafiante, pois, segundo Petersen e Farrell (2016), à
medida que as ferramentas da Internet se tornam mais sofisticadas, o potencial
de investigação virtual também aumenta, e os investigadores deverão estar à
altura dessa evolução, para poder fazer face aos novos desafios que se colocam,
capitalizando, assim, as vantagens emergentes.
Referências
Anderson, T. e Kanuka, H. (2003). e-Research:
Methods, Strategies, and Issues. USA: Pearson Education.
Coutinho, C. P. (2012). Investigar on line: Desafios e Oportunidade.
Universidade do Minho- Ed.CRV,
http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/21223
Morgado, L. e Costa, A. (2018). Mapeamento das tendências de investigação em
Educação a Distância e Elearning, na década 2004-2013: estudo exploratório no
contexto português, http://educa.fcc.org.br/pdf/rbpae/v34n1/1678-166X-rbpae-34-1-0053.pdf
[01 de abril de 2022]
Pereira, A., Cardoso, T., Monteiro,
V. e Pombo, C. (2021). Observação e
Design-Based-Research em contextos on line: Laboratório de Educação a Distância
e e-learning. Universidade Aberta, Portugal, https://doi.org/10.36367/ntqr.5.2021.57-70
[01 de abril de 2022]
Petersen, J. e Farrell, D. (2016).
Online Research Methods. In
book: Blackwell Encyclopedia of Sociology OnlineChapter: Online Research
Methods. Publisher: BlackwellEditors: George Ritzer, https://www.researchgate.net/publication/312136072 [01 de abril de 2022]
Quivy, R. e
Campenhoudt, L. (1998). Manual de
investigação em ciências sociais. Lisboa: Gradiva, https://tinyurl.com/2hf2sw6s
[01 de abril de 2022]
SPCE (2014). Instrumento de
regulação ético-deontológica: Carta ética. Lisboa: SPCE, http://www.spce.org.pt/PDF/CARTAETICA.pdf
[01 de abril de 2022]
Tuckman, B.W. (2000). Manual de
Investigação em Educação. Fundação Calouste Gulbenkian
Vaz, C., Rodrigues, M. R., Loureiro,
A., Barbosa, I., e Antunes, P. (2009). Técnicas
de recolha de dados em investigação qualitativa. RAAP, https://doi.org/10.36367/ntqr.5.2021.57-70 [01 de abril de 2022]
[1] A metodologia de Design-Based-Research (DBR),
inspirada no desafio de Brown (1992) de design experimentation, como
alternativa aos estudos laboratoriais, tem conhecido uma crescente adesão pela
sua natureza, assente na experimentação de um design intervencionista, in situ, tendo em vista desenvolver
teorias que tivessem em conta as múltiplas interações em contextos sociais
reais. (Pereira et al., 2021)
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