Unidade Curricular: Educação e Sociedade em Rede - 12010
Docente: Dr. António Teixeira
EQUIPA SIGMA
Mestrandos: Ana Paula
Valente - 2102159@estudante.uab.pt
Jefferson Matos - 2102162@estudante.uab.pt
Maria João
Alves - 2102166@estudante.uab.pt
Samuel
António - 1004459@estudante.uab.pt
Sónia Lamas -
2102171@estudante.uab.pt
Tópico 6 - A
rede como interface educativo (I)
Recensão
crítica dos vídeos de Michael Wesch
Ana letivo: 2021/2022
janeiro 2022
Introdução:
Este trabalho foi realizado no âmbito
da unidade curricular Educação e Sociedade em Rede, subtópico “A rede como interface
educativo”.
A tarefa consistia em elaborar, em
grupo, uma recensão crítica dos vídeos de Mike Wesch, face à acelerada
transformação digital e suas implicações nas instituições e os processos
educativos, não apenas na prática educativa, mas também o modo como pensamos a
função social da educação.
Os vídeos propostos eram os
seguintes:
1 - An anthropological introduction to YouTube, disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=TPAO-lZ4_hU
2 - The Machine is (Changing) Us: YouTube and the Politics of
Authenticity, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=09gR6VPVrpw
3 - Students Helping Students, disponível em: https://youtu.be/_npqbMKzHl8
4 - A Vision of Students Today, disponível em: https://youtu.be/dGCJ46vyR9o
5 - The Machine is Us/ing Us (Final Version), disponível em:
Sobre o autor: Michael/Mike Wesch
Michael Wesch é professor
na Universidade do Estado do Kansas, no departamento de sociologia,
antropologia e serviço social. É doutorado em Antropologia e Professor de
Antropologia Cultural.
Wesch estuda o impacto
dos novos “media” na sociedade e na cultura. Os seus vídeos sobre tecnologia,
educação e informação chegam a ter milhões de visualizações, sendo que os seus
vídeos e webinars são líderes de visualização.
É reconhecido internacionalmente como líder em inovação no ensino e dos
mais bem classificados sobre ensino universitário online. De acordo com a
própria universidade, foi considerado pelo New York Times como um dos 10
professores do país cujos cursos “mexem com modelos antigos” e acrescentou que
“eles dão aos alunos uma experiência que pode mudar a maneira como eles pensam,
com o que se importam ou até como vivem suas vidas”. O autor ganhou vários
prémios pelo seu trabalho, incluindo o Prémio Professor do Ano dos EUA da
Carnegie Foundation, o Wired Magazine Rave Award, o John Culkin Award for
Outstanding Praxis in Media Ecology e foi nomeado Explorador Emergente pela
National Geographic.
Recensão crítica dos vídeos
1 - An anthropological introduction
to YouTube
Este
extraordinário vídeo, de Michael Wesch, constitui uma excelente reflexão sobre
o fenómeno da internet e, em particular, dos conteúdos de vídeo no YouTube. O
antropólogo dá vários exemplos do fenómeno de recordes de visualizações e de
alguns conteúdos relacionados com esta temática e partilha o seu olhar de
antropólogo sob várias perspetivas, trazendo contributos importantes para a
nossa formação.
Nesse
sentido, começa por nos remeter para os primeiros vídeos que foram criados,
salientando o jovem pioneiro de Nova Jérsia que se filma, no seu quarto, a
vibrar com música, exultando alegria e que, rapidamente, se transformou numa
estrela cibernautica. Wesch traz vários exemplos, de fenómenos desta natureza,
inclusivamente, de uma experiência imersiva que ele próprio promoveu neste domínio.
Uma
primeira visualização de um vídeo é apenas isso, é conhecimento já as seguintes
são confirmações, são re-conhecimento, o valor do Replay assume a grande
relevância.
O
autor leva-nos a refletir, explicando que um grupo a dançar frente a uma câmara,
não é apenas um grupo a dançar em frente a uma caixa, mas sim, um grupo a
dançar para milhões de caixas espalhadas pelo mundo. O que nos faz pensar, que
o que fazemos, num determinado contexto, em que dominamos a nossa ação no
momento, pode ser propagado por várias pessoas em vários locais do mundo e, a
partir desse ponto, não controlamos quem vê, quem reproduz e podemos ter, ou
não, um feedback daquilo que publicámos. Sendo que podemos ter um feedback
agora, ou depois, ou talvez um dia, e vindo de qualquer lugar do mundo ou do
vizinho do lado, ou de um familiar próximo. Existe, pois, uma imprevisibilidade
esmagadora, face ao que sucederá a seguir, até mesmo, em relação ao sucesso ou
ao fracasso, ou até a possíveis alterações que os nossos conteúdos possam vir a
sofrer.
Michael
considera que os media são mediadores sociais, o autor fala também, da questão
da “comunidade”, existindo uma comunidade YouTube e utiliza a expressão de se
passar da mercearia de bairro para o hipermercado. A este respeito, faz também
referência a Barry Wellman, o qual defende que para socializar as pessoas já
não necessitam de se “mover de sítio para sítio”, pois a conectividade permite
que a socialização possa ser feita “pessoa a pessoa”, permite o que o autor
designa de “individualismo em rede”.
Verifica-se assim, uma inversão cultural,
tomamo-nos cada vez mais individualistas, mas muitos de nós, ainda, têm um
forte desejo de comunidade. Assim, quanto mais individualistas nos tornamos,
mais desejamos esta comunidade. Podemos, então, falar das nossas contradições e
das ambivalências que sentimos. Segundo o autor, tornamo-nos cada vez mais
independentes, enquanto desejamos fortes relacionamentos, ou seja, assistimos a
paradoxos, por um lado, desejamos privacidade e algum isolamento, mas por
outro, desejamos partilhar as nossas vidas com o mundo.
Um
outro exemplo dado, é o de um indivíduo que, não tendo ninguém para o
cumprimentar, recebe através do YouTube abraços grátis.
O
autor refere, ainda, um outro documentário em que uma estudante mostra, através
do espelho, a câmara para a qual está a falar e afirma que não está a falar
para eles, mas sim para a câmara. Portanto, está connosco, mas não sabe quem
somos. Ou seja, cada vez que falamos para uma webcam estamos a falar para algum
local desconhecido e não sabemos quem está a falar connosco, estamos assim,
perante um fenómeno de audiência invisível, e de modo assíncrono, pelo que não
sabemos quando seremos vistos. Esta ideia é muito interessante, pois,
representa uma nova forma de comunicar que nos deixa cheios de expectativas e
de certa forma em standby, numa suspensão do tempo e do espaço.
O
autor refere que cada vez que falamos, estamos a dimensionar o contexto e,
neste caso, não sabemos, qual é o contexto. Podemos ser lançados em vários
contextos, inclusivamente, o nosso vídeo pode ser misturado por alguém. Isto é,
o que ele chama de colapso do contexto. A profunda experiência de colapso do
contexto, remete-nos para que no momento em que olhamos para a webcam, pela
primeira vez, e começamos a tentar falar, temos a sensação que não sabemos com
quem estamos a falar.
Outro
aspeto focado no vídeo são as questões da legalidade, pois grande parte do que
aparece no YouTube é ilegal, como os remakes e os remixes. Assim,
os nossos filhos ou os nossos alunos são “piratas”, sem que haja muito que se
possa fazer, neste mundo visto pelo mundo. Neste sentido, destacam-se as
palavras poéticas de Carl Sagan sobre o ponto azul (Terra) visto no espaço,
Michael fez um poema ao olhar para o ponto (câmara) que está ali, que é outra
pessoa, que é toda a gente. Do outro lado, daquele pequeno ponto de vidro está
toda a gente que amas, toda a gente que conheces, toda a gente de que ouviste
falar, toda a gente que está a viver as suas vidas que têm acesso à internet,
milhões de potenciais visualizadores e “tu no meio deles”.
Na
internet, estamos num espaço público, no vídeo, é referido, que é o espaço mais
público no mundo da privacidade de nossas casas. Tem sido utilizado para muitas
coisas: novela política, palco de comédia, um púlpito religioso, um pódio de um
professor, ou apenas uma forma de chegar ao vizinho que vive ao nosso lado ou
do outro lado do mundo, às pessoas que amamos, às que queremos amar ou às
pessoas que nem conhecemos. Partilhar algo profundo ou trivial, algo sério ou
cómico. Lutar pela fama ou simplesmente ligar-se. Pode ser muitas coisas, mas
não pode ser apenas uma coisa e não pode ser apenas o que queres que seja. Não
é apenas o que fazes dela, mas sim o que fazemos dela. É um pequeno ponto de
vidro, os olhos do mundo.
Esta
última reflexão faz-nos pensar, que desejamos ser o que não somos, mas que
também somos o que somos e estamos à frente, de quem quer que seja, de quem
amamos ou odiamos, estamos no local mais nosso e mais privado do mundo e dali
estamos em todo o mundo.
Por
fim, o vídeo faz referência às dimensões de reparação emocional ou da função
social que a internet e o YouTube podem assumir, nomeadamente, na possibilidade
de viver num falso self e em personagem, em que podemos ser quem quisermos e
mostrar que sentimos, o que não sentimos e, assim, nos confortarmos nas nossas
angústias e inquietações. Sendo ilustrado com o exemplo de alguém que perde um
filho e preenche esse vazio incomensurável, recorrendo a personagens e passamos
a citar palavras suas “Vocês aceitaram as minhas personagens, abraçaram-nas
até, e ao fazê-lo vocês abriram os vossos braços para mim. Permitiram-me
continuar a ter a fuga que ainda necessito nos momentos difíceis”.
Com
base nestes pressupostos, concluímos que a internet cumpre, assim, uma
função social, para além, naturalmente, da função associada à acessibilidade à
informação, segundo, Cardoso (1998), a visão da internet , não pode estar
limitada à chamada tecnologia de informação, e neste sentido, refere que se
deve contrapor o princípio da internet, enquanto tecnologia de informação, com
o da internet, enquanto, tecnologia social, pois os utilizadores da internet e
do ciberespaço não procuram apenas informação, procuram também, pertença, apoio
e afirmação, numa tecnologia, assim eminentemente social.
Para
complementar esta reflexão, importa referir no contexto educativo o conectivismo
e refletir sobre o indivíduo e a comunidade dentro deste novo contexto comunitário.
O conectivismo é uma teoria sugerida por George Siemens e Steven Downes, a qual
concebe que o conhecimento está disseminado numa rede de conexões e a
aprendizagem consiste na capacidade de construir, permanecer e circular nas
redes, desenvolvendo a capacidade de refletir, decidir e partilhar informações.
Bates (2017, p.92) defende que:
“No conectivismo, são as ligações coletivas entre todos os “nós” em uma
rede que resultam em novas formas de conhecimento. De acordo com Siemens
(2004), o conhecimento é criado além do nível individual dos participantes
humanos e está constantemente mudando e se transformando. O conhecimento em
rede não é controlado ou criado por qualquer organização formal, embora as
organizações possam e devam “ligar” este mundo de informações em fluxo
constante e desenhar um significado a partir dele. O conhecimento no
conectivismo é um fenômeno caótico em mutação, à medida que nós que vêm e vão e
que a informação flui através de redes que estão inter-relacionadas com uma miríade
de outras redes”.
2 -
The Machine is (Changing) Us: YouTube and the Politics of Authenticity
Este vídeo
faz parte da conferência intitulada “An Anthropological Introduction to
YouTube” que ocorreu no Fórum de Democracia Pessoal em 2009, no Jazz at Lincoln
Center e tem como título “A máquina está a mudar-nos/A máquina somos nós: o
YouTube e a política de autenticidade”. O autor Michael Wesch, professor de
Antropologia na Kansas State University, sendo conhecido pelo seu trabalho
académico no âmbito dos novos meios de comunicação e tecnologia digital, numa
perspetiva sociológica e etnográfica.
O vídeo tem
como protagonista este professor que, num diálogo com os assistentes da
conferencia, disseca as mudanças na sociedade e na cultura que decorrentes do
aparecimento do YouTube. O autor tenta dar uma ideia da forma como os
utilizadores desta rede social elaboram os conteúdos, os mostram e como são
distribuídos pela rede, com todos os filtros que neste fluxo vão surgindo,
condicionando desse modo a maneira como criamos, encontramos e compartilhamos
os conteúdos, tornando-nos muitas vezes vítimas das redes sociais. Tudo isso
pode levar a uma solidão social e a perda de significados, valores e
instrumento da própria tecnologia.
O autor dá
relevo, logo no início da sua conferência, ao livro 1984 e ao filme do
realizador Neil Postman “Amusing Ourselves to Death”, partindo daí para
defender como as novas tecnologias nos estão a afetar, como estamos a mudar a
cultura e como somos viciados e distraídos pelo entretenimento.
Depois
apresenta-nos os novos media como novas plataformas de comunicação e informação
e não como ferramentas para comunicar. Daí parte para uma análise da ecologia
dos media ao longo dos tempos, passando por vários meios e evolução cultural,
nomeadamente os anos 60 que ele refere a época do “não me importo”, para a de
90 com o “tanto faz e não me importo com o que faz”.
Nesta
viagem pelos tempos dos media e sobretudo dos novos, defende que os media proporcionam
novas formas de nos conhecermos e de nos relacionarmos na procura do eu
autêntico, sendo que, muitas vezes, não temos coragem nos relacionamentos
pessoais, mas com grande dose de narcisismo.
Daqui decorrem as questões de autenticidade: Que personalidades
verdadeiras temos nas redes sociais. Fala, ainda, de forma sintética, sobre a
irrelevância dos conteúdos que temos no YouTube e da facilidade com que algumas
pessoas usam as plataformas para campanhas de ódio sobre a proteção do
anonimato que estas permitem. Neste vídeo fica bem patente o papel dos media de
hoje na mediação, filtragem e mesmo censura da informação.
Assim o
autor, com a sua crítica à atual cultura, fortemente individualista,
independente e fruto do marketing, defende, em alternativa, a necessidade das
relações com a comunidade e o reforço da autenticidade, sendo que a família tem
um papel importante no controlo e fiscalização do acesso aos medias e da
educação para os valores das crianças e jovens. Ou seja, preconiza que não nos
deixemos controlar pela máquina(s).
O professor
Michael Wesch termina, antevendo e, sobretudo, deixando um apelo para que todos
usem o YouTube da melhor forma, recorrendo às suas potencialidades e sem nos
deixarmos iludir pela novidade e supremacia das tecnologias: “Eu importo- me.
Vamos fazer o que for preciso por todos os meios necessários”; “I care. Let´s do whatever it takes … by whatever means
necessary!”.
3 - Students Helping Students
O título do
vídeo “Students Helping Students”, de Michael Wesch, que pode ser traduzido
para português como "Estudantes ajudando estudantes". Este vídeo foi
criado em 2010 pelos seus alunos da disciplina “Digital Ethnography” para
compartilhar o trabalho da organização sem fins lucrativos "K-State
Proud", a qual tem o objetivo de ajuda os alunos da Kansas State
University a ajudar financeiramente outros alunos para se formarem. De 2006 até
a publicação do vídeo, eles arrecadaram 250 mil dólares em doações, para os seus
colegas. Principalmente para aqueles que mais precisam, devido à perda de suas casas,
dos seus pertences numa inundação, ou por causa de uma doença grave, como foi
apresentado na descrição do vídeo no YouTube.
De forma
descontraída, o vídeo demonstra como as pessoas ao estabelecerem uma rede, com
um mesmo interesse, podem proporcionar mudanças nas vidas de outras pessoas.
Wesch neste vídeo foca um conjunto de valores promovidos por aquela comunidade
académica, em que cada aluno não vive isolado, pertence a uma comunidade que
tem como pilares base a cooperação e entreajuda. Atos de solidariedade ficam
maiores quando são feitos em conjunto, mesmo sem as pessoas se conhecerem. Assim
se confirma que a função social da educação é, com efeito, reproduzir uma
sociedade em rede que estabeleça comunidades de aprendizagem e autoformação que
realizem trabalhos como esse da K-State Proud, que propiciam uma sociedade
melhor. O site K-State Proud (twentyfor.org) informa que a instituição já arrecadou
até 2021, 1.4 milhões de dólares em doações e já ajudaram 900 alunos em 15 anos
de existência. Concluímos que este vídeo, assente nos valores daquela
comunidade académia, revela igualmente como a rede pode ter um papel
preponderante na implementação desses valores.
Transpondo
estes valores de cooperação, partilha e entreajuda para o contexto educativo,
este vídeo aponta para as possibilidades que as tecnologias oferecem no acesso
à educação, nas mudanças que permitem tornar os alunos, para além de
utilizadores, construtores de informação e de redes de partilha de
conhecimento, tendo um papel mais ativo na construção do seu próprio
conhecimento.
4 - A Vision of Students Today
Este vídeo realizado em 2008 vai ao
encontro das orientações desta tarefa “transformação digital das instituições e
dos processos educativos”. No entanto, a ideia principal veiculada pelo mesmo
aponta para a ideia de que “esta nova realidade da sociedade em rede não
está a transformar a educação”, nem está a “recuperar a antiga
dimensão comunitária da aprendizagem, integrando-a de modo dinâmico com a noção
tipicamente moderna de auto-formação”.
O vídeo foi
realizado pelo professor Mike Wesch, no ano de 2008, em colaboração com os seus
alunos, no âmbito da disciplina de etnografia digital da Universidade do Estado
do Kansas, EUA. Claramente o objetivo
deste vídeo é mostrar que o contexto educativo não pode escudar-se na
necessidade de adaptação às constantes evoluções da tecnologia, mas antes agir
no sentido da alteração dos paradigmas e das práticas educacionais, tal como
afirma Grajek (2021, p.51) “IT leaders are ensuring that their technical staff
receive the training and opportunities needed to be able to work within the new
technical environments”.
Ao longo do vídeo é salientada a
discrepância, ao nível do recurso a tecnologias, existente entre o dia a dia
daqueles alunos (e de muitos outros) e o contexto aula. Esta discrepância entre
a realidade de uma sala de aula atual e a evolução tecnologia ali inexistente
está bem patente na frase de abertura do vídeo, que é uma citação de 1967 de
Marshall McLuhan, a qual refere que as salas de aula atuais são as salas
típicas do século XIX, acrescentando que o sistema educacional continua a
pautar-se pela escassez de informação, por um sistema organizado, estruturado e
fragmentado em função de “disciplinas padrão” e horários. Termina, igualmente, com a visão de uma sala
de aula do século XIX, na qual faltam fotos, vídeos, animações e trabalho em
rede.
“A Vision of Students Today” teve
como ponto de partida a realização de um questionário online, no qual os alunos
teriam que manifestar as suas opiniões, experiências e expetativas quanto ao
sistema de ensino superior. A durante o vídeo são apresentadas frases
decorrentes do tratamento de dados deste questionário, nas quais estão patentes
várias críticas: ao número de alunos por
aula, ao distanciamento relacional professor-aluno, aos métodos e estratégias
de ensino, aos objetivos inadequados das disciplinas, à falta de motivação, de
concentração durante as aulas e de compromisso com a função de estudantes e,
por fim, ao facto de não estarem a ser preparados para o futuro, pois muitas
das profissões atuais desaparecerão ou transformar-se-ão.
O vídeo apresenta muitas críticas,
mas também muitos aspetos reais e que exigem a reflexão de todos. Mas será que
a tecnologia resolveria todos os problemas apresentados? Será que os quatro
aspetos mencionados no final do vídeo - fotos, vídeos, animações e trabalho em
rede – por si só resolveriam estes problemas. A resposta será, certamente, que
não. Porém, há uma enorme discrepância entre a presença do mundo tecnológico e
digital na nossa vida dentro e fora da escola. Mas bastaria apenas apetrechar
as escolas com meios tecnológicos? Obviamente que não. Os sistemas educativos
têm mostrar no dia-a-dia dos alunos na escola evidências de mudança e de
evolução. Quanto mais diversificadas e significativas forem as experiências dos
alunos numa escola, seja uma escola básica ou uma universidade, melhor
preparados estarão estes alunos para a integração na sociedade e no mundo do
trabalho, independentemente das funções que vierem a desempenhar. No entanto,
não se adquirem competências apenas através do recurso à tecnologia, a
interação é um dos fatores-chave de qualquer sistema de educação, de acordo com
Niza (2018, p. 8) é necessário “(…) envolver os alunos em responsabilidades
compartilhadas com os professores em autênticas atividades de criação e de
apropriação conjunta de conhecimentos.” Têm que existir cada vez mais
comunidades de prática, nos contextos escolares, entre professores, alunos e
professores-alunos com um compromisso mútuo que leve à aquisição de novas
capacidades, competências e conhecimento. Grajek (2021,
p.51) salienta: “For example, faculty are spending more time advising students
and contributing information about their work with students to student success
efforts. All staff supporting
students are learning how to respond to early alerts and warnings”.
O desafio
dos sistemas educativos coloca-se em criar condições de equilíbrio entre a
constante evolução tecnológica e das sociedades e o conhecimento, a
compreensão, a criatividade e o sentido crítico. Há inclusive a nível mundial
experiências educativas de sucesso, como por exemplo o Deep Springs College,
Califórnia USA, que valorizam competências comunicativas, cognitivas,
metacognitivas, sociais, emocionais, psicomotoras, físicas e práticas,
reduzindo o recurso e a dependência dos estudantes das tecnologias.
Bates (2017,
p. 54-6) refere as competências necessárias na sociedade do conhecimento, sendo
as seguintes: habilidades de comunicação; capacidade de aprender de forma
independente; ética e responsabilidade; trabalho em equipe e flexibilidade;
habilidades de pensamento; competências digitais; gestão do conhecimento.
Em
conclusão, pode afirmar-se que as questões apontadas no vídeo certamente
manter-se-ão em algumas instituições, no entanto, de um modo geral, o ensino superior
tem vindo a evidenciar sinais de adaptação às novas tecnologias e de melhoria
nas práticas pedagógicas. Além disso, não obstante o recurso às tecnologias,
não podemos ignorar que o papel dos professores continua e continuará a ser
fulcral no desenvolvimento de competências.
5
- The Machine is Us/ing Us (Final Version)
Neste vídeo
datado de 2007, Michael Wesch caracteriza a web 2.0, começando por fazer uma
comparação entre o hipertexto e suas enormes vantagens perante o anterior
contexto de simples texto escrito. Na realidade com o advento da web 2.0, ou
web social com grande partilha de dados entre utilizadores e a rede, houve uma
natural evolução para o hipertexto e hipermédia, sendo a Wikipédia que surgiu
em janeiro de 2001 e o Facebook em fevereiro de 2004 exemplos paradigmáticos
neste âmbito.
Quando Tim
– Berners Lee em 1991 criou a WEB, assistimos ao advento da democratização do
acesso a muito mais informação. Com o surgimento do Hipertexto os conteúdos
ficaram tendencialmente infinitos, na Web 2.0 assistimos à democratização do
pensamento, a primavera árabe mostrou ao mundo a dimensão do cidadão repórter
que com um simples telemóvel com ligação à rede pode até derrubar regimes
totalitaristas.
É inegável,
que na web 2.0, esta máquina… começou a usar-nos, na medida em que foram e são
os utilizadores que continuam a alimentar a sua voracidade. De facto, os dados
fornecidos cresceram infinitamente, por outro lado usamos-no-la para aceder ao
manancial infinito de informação que ela abarca. Assim será legitimo assumir
que nesta relação homem máquina existiu inicialmente uma “simbiose funcional”,
que nos levou à web 3.0 ou web semântica e nos conduzirá ou conduziu,
previsivelmente à web 4.0 fortemente assente na inteligência artificial e
alicerçada numa enorme acumulação de dados e que evoluirá possivelmente até ao
“algoritmo mestre” com a expectável continuação de utilização de software de
reconhecimento de padrões de dados e de aprendizagem automática.
Neste vídeo são apontadas as potencialidades da
web/machine, mas também as suas influências na virtualização do real. O
hipertexto (texto digital) tem um alcance muito mais vasto do que a escrita em
papel, dada a rede de interligações que a web proporciona, sem limitações
espaciais e temporais, com grande velocidade e facilidade de acesso, o que traz
claramente bons e maus efeitos. Se, por um lado, passámos de criadores de
documentos fechados para uma total abertura da informação, sendo como
produtores de conteúdos os utilizadores da rede/machine. Por outro lado, a
rede/machine usa esses mesmos produtores de conteúdos e utilizadores da rede
para disseminar tudo o que produzem. O vídeo aponta para o facto do conteúdo
disponível na web poder ser usado de todas as formas, incluindo as mais
inesperadas e indesejadas, numa perspetiva um pouco pessimista que quase aponta
para um mundo onde assumimos que cada clique permite o fornecimento a uma empresa
comercial de resmas incalculáveis de dados sobre nós. Com efeito, o medo das
máquinas e da evolução da tecnologia não é novidade. No caso da Internet, a sua
falta de fronteiras geográficas deu origem a novos tipos de medo: predadores
online, questões de privacidade, cyberporn, cultos suicidas, entre outros. O
próprio título 'The Machine is Us/ing Us' carrega em si uma visão
negativa.
No final do vídeo, o autor concluiu que não temos
que assumir uma atitude de receio sobre o futuro da tecnologia, mas sim
estarmos conscientes das suas (des)vantagens e repensar alguns aspetos
importante, tais como: direitos de autor, identidade, ética, estética,
retórica, governação, privacidade, comércio, amor, família e nós próprios. Este
vídeo em particular, fez-nos recordar os pensamentos de Baudrillard e de
Virilio, no que respeita ao papel do ser humano no mundo tecnológico, aos riscos
do excesso de informação e a forma como a web modificou as nossas experiências
de vida.
Conclusão:
Nos vídeos
analisados, Wesch apresenta diferentes aspetos dos avanços tecnológicos,
pretendendo levantar questões importantes, nomeadamente o facto de que, em vez de
resistirmos à evolução da tecnologia, devemos discuti-la, usá-la e testá-la e
aprender com ela. Os vídeos apresentam aspetos
comuns e que se podem transferir para o contexto educativo, nomeadamente o
apelo à necessidade de alteração dos paradigmas e práticas educativas para que
estejam em consonância com a sociedade em rede em que instituições educativas e
alunos estão inseridos. As críticas aos
modelos de ensino “do passado” que perduram na escola da era tecnológica,
demonstram a necessidade de repensar a educação em função dos elementos
integradores e facilitadores potenciados pela tecnologia. Não obstante, a
constatação de que as mudanças da sociedade não são acompanhadas pela escola,
Wesch salienta a necessidade de criar redes que permitam oferecer oportunidades
idênticas a todos os alunos, pois a tecnologia deve permitir um melhor e mais
fácil acesso à aprendizagem e ao conhecimento e não ser um obstáculo, em função
das diferentes realidades sociais.
Demonstrando
que os alunos são elementos ativos na sociedade que que adotam valores de
colaboração, partilha e entreajuda, Wesch aponta-nos para as mudanças no papel
dos alunos e professores no seio escolar através da descentralização do papel
do professor como detentor do conhecimento e do aumento da cooperação e
construção partilhada entre alunos e professores do conhecimento. Esta forma de
trabalho não tem apenas impacto no papel desempenhado pelos alunos na sua
formação, mas também no sentimento de pertença a uma comunidade de
aprendizagem.
O autor aborda a evolução da tecnologia com um
olhar antropológico, focando simultaneamente os perigos e as vantagens como a
tecnologia está a mudar a forma como as pessoas vivem, agem e socializam. No
entanto, tal como salienta Bates (2017, p. 60) as “mudanças devem vir de dentro
da organização e, em particular, dos próprios professores. (…) Se o governo ou
a sociedade como um todo tenta impor mudanças de fora, (...) existe um grave
risco de que a mesma coisa que faz da universidade um componente único e
valioso da sociedade poderá destruí-la, tornando-a, assim, menos valiosa para a
sociedade como um todo.”
Biblio e Webgrafia:
https://www.k-state.edu/sasw/faculty/wesch.html
Bates, A. W. (Tony). (2017). Educar na era digital: design, ensino e
aprendizagem (versão digital). Tradução
de Teaching in a Digital Age: guidelines for designing teaching and learning. Disponível
em: http://www.abed.org.br/arquivos/Educar_na_Era_Digital.pdf
Cardoso, G. (1998). Para uma sociologia do ciberespaço:
comunidades virtuais do ciberespaço. Ed. Celta. Oeiras
Grajek, S. (2021).
How Colleges and Universities are driving to Digital Transformation today. Disponível
em: https://er.educause.edu/-/media/files/articles/2020/1/er20sr214.pdf
Niza, S. (2018). Aprender a participar na construção da vida
democrática. Escola Moderna, N.º 6, 6.ª série, 2018, p. 7-9.
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