Virtualização das Relações Sociais: identidade, autenticidade e transparência

 Ao longo da história, a evolução das interações comunicativas foi um dos marcos do desenvolvimento da Humanidade. No entanto, a segunda metade do século XX e o século XXI foram marcadas por evoluções tecnológicas que modificaram significativamente a(s) forma(s) de comunicação. Hoje conseguimos comunicar de forma cada vez mais fácil e rápida, tendo sido quebradas as barreiras espácio-temporais do ato comunicativo. As interações pessoais e presenciais foram grandemente substituídas pela comunicação instantânea, imediata e simultânea, permitindo um vasto número de interlocutores situados em diferentes pontos do mundo (até do universo).  

Esta evolução das tecnologias da informação e comunicação e as suas implicações na forma como a Humanidade comunica, tiveram com principal consequência o facto de a Sociedade em Rede ser aquela em que todos vivemos atualmente, embora com particularidades distintas nas diferentes culturas e contextos, pois não existe uma sociedade em rede única. Segundo Castells (2005), "A Sociedade em rede é a sociedade em que nós vivemos. Não é uma sociedade composta por cibernautas solitários e robôs em telecomunicação. (...) É, simplesmente, a sociedade em que estamos a entrar, desde há algum tempo" (in Cardoso et al., 2005, p.19), no entanto clarifica que as pessoas plenamente integradas na sociedade em rede são ainda uma minoria da população do planeta. 


Interações sociais mediadas pela tecnologia: (ir)reais e/ou virtuais?

Muitas das interações sociais passaram a ser intermediadas pelas tecnologias. Lévy (1999) aponta que esta intermediação causa alterações na forma de comunicar, torna o ato comunicativo globalizado, dado que não há limites na interconectividade. De igual forma, Castells (in Cardoso et al., 2005) reporta que as novas formas de comunicação se impõem na nossa vida. Wesch (2008) acrescenta que esta interconectividade global está em constante evolução, pelo que não é possível prever todas as novas formas de comunicação. 

Apesar das novas formas de comunicação, as interações presenciais - as do mundo real - coexistem com as interações proporcionadas pelo mundo tecnológico e pela internet - as virtuais. A sociedade em rede é marcada pela conjugação destas duas formas de interação (Cardoso et al., 2005). Contudo, a questão não se limita ao modo utilizado para comunicar. Ao comunicar com diferentes interlocutores, de diferentes partes do mundo, as relações sociais que emergem desta comunicação virtual vão além das comunidades locais em que cada um dos participantes se inserem, logo criam-se, constantemente, novas comunidades, novas culturas (Wesch, 2008). 

Importa, então, compreender as implicações do mundo virtual e do ciberespaço nas interações sociais. Pierre Lévy considera que o virtual "tem somente uma pequena afinidade com o falso, o imaginário ou o ilusório" (2011, p. 12). Considera igualmente que, "em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes" (p. 15). O que significa que, nas interações virtuais, a identidade corresponde a "uma mutação de identidade", uma "simulação interativa", mantendo-se a identidade pessoal, a qual, por sua vez corresponde ao atual, por oposição à identidade virtual. 

O mundo virtual oferece possibilidades de aperfeiçoamento e melhoria das relações sociais, no sentido em que a distância, no mundo real, interfere com o estabelecimento de relações sociais, ao passo que no mundo virtual essas distâncias não existem, proporcionando interações em tempo real.

Também Baudrillard (2001) aborda o deslumbramento causado pelo mundo digital, como um fascínio pelas telas, onde o real não existe. As relações sociais virtuais são, para este autor, apenas uma projeção do real que terá implicações na sociedade contemporânea, dado que o mundo é apresentado através de écrans e não através do olhar de cada pessoa. Os simulacros e simulações desempenham a função de embelezar o real, para o tornar mais apelativo, recorrendo para tal às tecnologias que mediam estas simulações do real. 

De igual forma, Paul Virilio (1993) refere que a velocidade distorce a nossa perceção do mundo e da forma como estabelecemos relações. A comunicação deixa de ser interpessoal passa a uma comunicação técnica, perdendo-se a individualidade. As comunicações são mais frequentes mas não garantem uma melhor comunicação.

Estamos, então, perante relações sociais virtuais que são simultaneamente reais e irreais. Castells (2002) considera que as relações virtuais seguem os mesmos modelos de comunicação e interação das interações presenciais, embora funcionem num plano virtual, logo diferente da realidade. Ressalta, no entanto, que estas interações assentam em laços fracos mas que oferecem oportunidades relacionais a pessoas que não teriam possibilidades de estabelecer tais relações de forma presencial. Lévy (1999) considera que as comunidades virtuais não são irreais, imaginárias ou ilusórias, são antes comunidades que recorrem a novas formas de interação. Por isso Lévy (1999, p.128) considera que “(...) as relações on-line não excluem as emoções fortes. (...) nem a responsabilidade individual nem a opinião pública e o seu julgamento desaparecem no ciberespaço”.


Identidade(s), anonimato, transparência, opacidade e autenticidade  

Face a esta coexistência do real e do digital, do físico e do virtual, surge a questão da identidade e do anonimato, bem como da transparência e autenticidade na rede e nas relações sociais por ela mediadas. Grande parte dos utilizadores da internet, certamente, usam a sua identidade real, outros recorrem a nicknames, só uma pequena percentagem usará dados que se afastam da sua identidade offline. No entanto, contrariamente ao que acontece no mundo físico/real, cada interlocutor pode ser inúmeras "pessoas eletrónicas", i.e. pode criar múltiplas identidades virtuais, as quais têm como correspondência, num mundo físico, a apenas uma pessoa. Esta ligação entre a identidade real e virtual é invisível no mundo virtual, pelo que oferece possibilidades ilimitadas, podendo ser bem ou mal utilizada e coloca bastantes dúvidas quanto à autenticidade. 

Apesar da possibilidade de usar múltiplas identidades, o mundo virtual não está efetivamente desconectado do mundo real, pois isso permitiria a existência de uma sociedade virtual totalmente independente, em que a identidade virtual seria assumida em pleno e exclusivo, o que ainda não é o caso. 

Relativamente ao anonimato, no entendimento de Turkle (1997), as interações sociais digitais influenciam a perceção que os intervenientes têm de si próprios e dos outros. A comunicação virtual ocorre num "laboratório social", que estimula a autoexpressão livre e a exploração facetas próprias menos exploradas, pois causariam constrangimentos sociais na vida presencial (offline). Assim, nas interações sociais online há uma menor pressão social que leva a que facetas de personalidade sejam possíveis graças à possibilidade que a Internet oferece de assunção de diferentes identidades que conferem a sensação de anonimato. Esta noção de anonimato pode conduzir quer a comportamentos positivos, quer negativos. Se por um lado, o anonimato potencia a assunção de papéis e relacionamentos que presencialmente não seriam assumidos; por outro lado, poderá conduzir a atitudes de irresponsabilidade e hostilidade.

A possibilidade de uma só pessoa física ter múltiplas identidades virtuais coloca muitas interrogações quanto à autenticidade e transparência nas relações sociais estabelecidas de forma virtual, sendo que entendemos autenticidade [1]  como algo verdadeiro, logo que não sofreu nenhuma alteração, adulteração ou corrupção e transparência [2]  como aquilo que é fácil de perceber ou de interpretar, que é claro, evidente por oposição ao que é obscuro, opaco, hermético. Fisher (1996) a este propósito refere-se à autoapresentação autêntica ou estratégica, definindo-as da seguinte forma: "A auto-apresentação autêntica (…) é uma imagem de nós apresentada aos outros tal como somos; a auto-apresentação estratégica (…) é uma imagem de nós apresentada aos outros de tal forma que corresponda às suas perceções e expetativas. (p. 222). De facto, o autor remete-nos para a autenticidade como a reafirmação da nossa identidade ou, em alternativa, para a representação, a encenação. No entanto, o mesmo autor reforça que, no estabelecimento de relações sociais, todos participamos, de alguma forma numa representação teatral com o objetivo de construirmos uma imagem favorável de nós próprios, em que a "identidade surge (...) como um elemento da dinâmica social que obriga os indivíduos a envolverem-se nos sistemas de interação e a definir o jogo que aí são capazes de jogar" (Fischer, 1996, p. 223). As questões da autenticidade e transparência na rede não se podem dissociar da questão da identidade e de alteridade. A construção da identidade ganha sentido e significado através da relação com os outros, da relação entre o individual e o social. Além disso, a identidade digital e a identidade pessoal não são independentes, antes interdependentes e complementares. 

A autenticidade e transparência nas redes também coloca questões relativas à autenticidade e veracidade dos conteúdos disponíveis online. Daí que Cardoso et al.(2005) refira que "vais ser preciso que se aprenda também eficazmente a ler e escrever na internet" (p.11), até porque como diz Virilio (1993) cada invenção traz os seus perigos, neste caso a internet oferece cenários infinitos como o cibercrime, ciberbullying, ciberataques e outros crimes cibernéticos.


Em suma, podemos afirmar que a cibercultura, em que nos inserimos atualmente, potencia a virtualização das relações humanas, alterando as formas de comunicação, o tempo e o espaço das interações. Nestas interações, mediadas pela tecnologia, ocorre a construção e reconstrução de identidades em função do contexto e dos interlocutores, pois o ambiente virtual potencia esta reconfiguração constante das identidades e das relações. Castells considera que as relações virtuais não são reais, nem irreais, afirma antes que "(...) a realidade, como é vivida, sempre foi virtual, porque é sempre percebida por intermédio de símbolos" (2002, p.459), a realidade é polissémica, logo é percebida de forma virtual, pois é percecionada de forma diferente por cada indivíduo. 


[1] in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/aut%C3%AAntico [consultado em 13-12-2021].

[2] in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021https://dicionario.priberam.org/transparente [consultado em 14-12-2021].


Bibilografia

Baudrillard, J. (2001) Simulacros e Simulação. 2ª edição. Lisboa: Relógio d’Água

Cardoso, G.; Costa, A.; Conceição, C.; Gomes, M. (2005). A Sociedade em Rede em Portugal, Porto, Campo das Letras

Castells, M. (2005) Capítulo 1- A sociedade em rede, in Cardoso, G.; Costa, A.; Conceição, C.; Gomes, M. (2005)  A Sociedade em Rede em Portugal, Porto, Campo das Letras

Castells, M. (2002) A Sociedade em Rede, Volume I A Era da Informação: Economia, Sociedade, Cultura. São Paulo: Paz e Terra - documento online disponível em: https://globalizacaoeintegracaoregionalufabc.files.wordpress.com/2014/10/castells-m-a-sociedade-em-rede.pdfLisboa: Fundação Calouste Gulbenkian

Fischer, G. (1996) Os Conceitos Fundamentais da Psicologia Social. Lisboa: Instituto Piaget

Lévy, P. (1999) Cibercultura. Tradução Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, documento online disponível em: https://www.giulianobici.com/site/fundamentos_da_musica_files/cibercultura.pdf

LÉVY, P. (2011) O que é o virtual? 2 ed. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Editora 34

Turkle, S. (1997)  “A Vida no Ecrã: a identidade na era da Internet”, Lisboa, Relógio D’Água 

Virilio, P. (1993) A Inércia Polar. Lisboa: D. Quixote

Wesch, M. (2008), An Anthroplogical introduction to You Tube. [Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=TPAO-lZ4_hU&feature=channel_page]


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